Mãos segurando um pouco de terra com uma pequena planta: texto sobre morte e finitude

Todos os anos, o dia 2 de novembro é dedicado às recordações daqueles entes queridos que morreram, mas também é uma oportunidade para falarmos sobre morte e finitude.

Talvez não saibamos, mas a celebração de finados é uma tradição antiga. Já durante o século V, a Igreja cristã dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos.

Embora se mantenha como uma celebração significativa, especialmente no calendário litúrgico da Igreja Católica, lembrar dos falecidos e, especialmente, pensar e falar sobre a morte não é algo fácil para todos, mesmo sendo esse um tema que, curiosamente, ronda nossa vida.

Há quem fale sobre a morte com naturalidade; alguns preferem ignorar o assunto; e outros têm mais dificuldade de falar sobre ela. Mas, não lhes parece paradoxal que não nos perguntemos sobre aquela que é a nossa única certeza?

Proponho que pensemos o tema a partir de alguns conceitos propostos pelo filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) autor de uma das principais obras filosóficas do século passado: Ser e Tempo.

Mesmo sendo certo que sabemos que a morte faz parte da vida. e que cada um de nós a vivenciará em determinado momento, de onde podemos dizer que vem essa certeza? Como sabemos que vamos morrer? Como se convencer da própria morte? Essas perguntas podem ser resumidas em uma: eu experimento a morte quando estou diante da morte de alguém?

Heidegger diz que não nos relacionamos com os restos mortais de alguém que faleceu da mesma forma que nos relacionamos com outras coisas: eles são tratados com maior diligência.

Ora, embora a experiência da morte possa ser feita nesse sentido, além dos movimentos interiores que experimentamos e os sentimentos de perda e de tristeza, isso não permite que ninguém experimente a morte de maneira adequada, pois “ninguém pode morrer no lugar de ninguém”.

A morte é sempre algo pessoal

O principal é que não vivemos propriamente a morte alheia, porque a morte é sempre única, a minha. Porém, estar perto de quem morre e perceber o fim dos outros nos coloca continuamente diante da realidade de nossa própria finitude.

Nesse sentido, a morte alheia não é vivenciada, pois ninguém pode substituir o outro em sua morte, mas a experiência dos modos como alguém que conhecemos, e amamos, morre é uma porta de entrada para a compreensão de nossa (paradoxalmente) própria possibilidade de morrer. É paradoxal justamente porque morrendo encerram-se todas as nossas possibilidades.

Imagem de fundo escuro, com prédios. E uma mulher, de calça vermelha e blusa listrada, saltando com lenço vermelho nas mãos

Vamos morrer, portanto, vivamos!

A morte é a possibilidade que pode se tornar presente a qualquer momento da vida, e sua irrupção significa o fim das possibilidades. Isso ocorre justamente porque, como disse o filósofo Benedito Nunes, isso faz parte de nossa constituição como seres no mundo.

Agora, embora a morte seja o ponto final da existência – pelo menos neste mundo tangível, considerando que pode-se crer em uma vida ultraterrena, se pensamos na crença na existência de um céu, por exemplo –, tomar consciência do nosso “poder morrer” não necessariamente deve levar ao medo.

Isto mesmo, a certeza da morte não deve nos conduzir ao medo, ao contrário, reconhecer nossa finitude é um caminho para levarmos uma vida mais consciente. Ou seja, uma existência autêntica, como diria Heidegger, é autêntica na medida em que se tem consciência da própria finitude.

A partir da ideia da morte como possibilidade segura, que cedo ou tarde chegará, estamos chamados a tomar em nossas mãos a própria vida e construirmos nosso projeto!

Ou seja, não necessariamente temos que contemplar a morte como limitação de toda a existência, mas sim como algo que exerce a função de nos convidar continuamente à vida.

Não se trata de tomar consciência da própria finitude e, por isso, afundar-se em uma crise existencial e de ausência de sentido. Essa ideia é aterrorizante e baseada, geralmente, em uma antecipação que nos lança ao temor ao nada.

A antecipação que propomos é outra. Sabendo que a morte é a única certeza entre as incertezas da vida, sendo conscientes de nossa própria finitude, podemos construir metas e caminhos para uma existência mais consciente e, portanto, mais autêntica.

Embora contraditório, é precisamente a morte que pode nos ensinar a viver!

Lembremos com carinho e gratidão aqueles que partiram, e sigamos construindo nosso existir com a certeza de que, apesar dos pesares, viver vale a pena!

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